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Agir sem lutar

Esforço na Medida Certa

A teoria taoísta do wu wei, ou da não-ação, combate a idéia ocidental de que, para se obter o sucesso em qualquer área da vida, é indispensável grande dose de sacrifício e sofrimento.


Por Sim Soon Hock e Inti Mendonça - O texto a seguir é o capítulo 2 do livro Esforço, segundo volume da coleção As 7 Riquezas do Homem Santo, de Sim Soon Hock e Inti Mendonça, lançado recentemente pela Editora Axis Mundi.








Prensa Três

A palavra “esforço” dá a idéia de agir e, mais ainda, agir de uma maneira que exige grandes quantidades de energia ou sofrimento. Essa é a idéia mais comum e difundida e, por causa dela, as pessoas cultivam certo receio de tudo que se mostra difícil e desgastante, a menos que lhes pareça “valer a pena”. No caso, “valer o esforço”.


Ainda é comum as pessoas acharem que, quanto mais esforço dedicarem a algo, tanto mais garantido será o seu sucesso. Isto é, o esforço passa a ser a moeda com que elas barganham com o destino. Quanto maior o investimento, tanto maior o “direito” de exigir um retorno satisfatório. Nem é preciso dizer quanto essa maneira de pensar é um passaporte para a desilusão e frustração das esperanças humanas. A vida não existe para o ser humano fazer acordos comerciais com ela.


A própria idéia de ação deveria ser profundamente analisada, para você poder perceber quanto o seu esforço realmente influi na construção do seu futuro. Para ilustrar essa questão de um ponto de vista diferente, falaremos de um dos conceitos mais belos e importantes da filosofia taoísta: o wu wei, ou simplesmente não-ação.










Prensa Três
Ação do homem sobre o meio ambiente: arrogância desmedida que destrói a vida.

Wu wei, a não-ação, foi um conceito apresentado por Lao-tsé em seu clássico Tao Te King. Já para a sociedade da época (século 6 a.C.), esse conceito desafiava os valores vigentes de que as conquistas e realizações humanas são fruto da ação e do esforço de cada um. A lógica sugere que tais valores não estão errados; muitas das coisas que construímos pela vida afora parecem comprovar essa noção de soberania da ação humana sobre a vida e o ambiente que a cerca. Entretanto, esses valores revelam uma arrogância desmedida: quem é o homem diante da realidade do mundo? Se o mundo é uma teia imensa na qual infinitos fatores diferentes interagem contínua e constantemente, por que o homem tem a arrogância de pensar que tudo é efeito e conseqüência exclusiva da sua própria mente? Essa arrogância mostra sua face nos diversos problemas pessoais e coletivos vividos tão intensamente pela humanidade nos dias de hoje. E isso nos faz pensar ainda mais sobre o que, afinal, é a nossa ação.






Consciente ou inconscientemente, as ações encobrem intenções – assim define o senso comum.

A capacidade de agir é inata ao ser humano. Quer a chamemos de vitalidade ou instinto de sobrevivência, o ser humano age e reage mesmo antes de nascer. Com o passar dos anos, essa ação vai ficando cada vez mais requintada e adquire nuances que sugerem uma reflexão sobre o que ela carrega em seu interior: as intenções. Algumas pessoas acreditam que a intenção define a qualidade de uma ação (o que não é pouca coisa) e, portanto, serve de justificativa para o agir. Entretanto, qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade para a complexidade psicológica do ser humano dirá que isso é muito relativo, porque a verdadeira intenção por trás de uma ação humana às vezes não é conhecida sequer pela própria pessoa que age. Mas, consciente ou inconscientemente, as ações encobrem intenções – assim define o senso comum.










Thomas Baccaro
A capacidade de agir e reagir é inata ao ser humano e, com o tempo, torna-se mais requintada.

É justamente neste ponto que entra o sutil conceito de não-ação, citado da seguinte maneira por Lao-tsé:


Ser e não-ser geram-se mutuamente.
Difícil e fácil se completam.
Longo e curto delimitam-se
Alto e baixo se regulam.
Som e tom se harmonizam.
Antes e depois sucedem-se.


Por isso o homem santo pratica o não-agir e ensina sem falar.
Os dez mil seres agem, e ele não lhes recusa ajuda.
Produz sem apropriar-se, trabalha sem nada esperar em troca.
Realiza obras meritórias sem a elas se apegar
E, justamente por isso, suas obras perduram.


Lao-tsé, o grande sábio chinês, está dizendo que o homem santo age pela não-ação, que todos os seres agem e ele não lhes recusa ajuda, que ele nunca se apega às suas realizações e que, por isso mesmo, suas obras se tornam eternas. Essa, sem dúvida, é uma maneira incomum de estimular uma ação, porque equivale a dizer: “Faça algo, mas ao mesmo tempo não faça nada, pois só assim você poderá fazer tudo.” Não é por acaso que os ensinamentos dos livros sagrados sempre foram misteriosos para a mente humana.


Esforço na Medida Certa - continuação









Sérgio Moraes
Fatalidades do cotidiano: prova de que o mundo é criado e destruído independentemente da nossa vontade.


Essa idéia é apresentada no segundo capítulo do Tao Te King, logo depois de uma das definições mais paradoxais e metafísicas da natureza da verdade, em que Lao-tsé fala do nominável e do inominável, do ser e do não-ser – que são, na verdade, uma coisa só e constituem “o mistério dos mistérios, o portal por onde passam as maravilhas”. Nesse universo misterioso e inexplicável, os pares de opostos começam sua Dança de Shiva, criando e destruindo universos, fazendo fluir o sopro vital (o chi, que por todos os cantos alimenta a vida), cumprindo seu papel independentemente da vontade humana e fora de seu controle – o que certas “fatalidades” da vida nos mostram com muita clareza. Santo é o homem que compreende e reverencia o universo que o rodeia e, portanto, reconhece que sua ação é o efeito e não a causa, é o fruto e não a semente. Com isso, o homem santo permite que suas não-ações estejam em comunhão com os grandes princípios universais, tornando as ações plenas de chi, de sopro vital.


Confrontando as idéias taoístas sobre a não-ação com o senso comum de que a realidade é conseqüência das ações humanas (havendo obrigatoriamente uma intenção por trás da ação), percebe-se que a filosofia chinesa e o racionalismo ocidental partem de pressupostos diferentes. Melhor dizendo, partem de diferentes estados de consciência. A postura mais comum ainda está baseada nos valores de um racionalismo certamente já ultrapassado pelas transformações sofridas pelo mundo nos últimos tempos – um racionalismo que afirma que as coisas seguem padrões lineares, lógicos e previsíveis, tornando-se, portanto, passíveis de ser programadas. Dentro desse racionalismo, minha vontade conta muito e minha ação é a maneira pela qual atinjo meus objetivos; a natureza, o ambiente e até as pessoas, dependendo do meu grau de megalomania, tornam-se passíveis de ser moldados ao meu bel-prazer. As ilusões de poder e dinheiro como o caminho mais curto para o paraíso na Terra atestam essa postura tão perniciosa para o equilíbrio da humanidade e do planeta. Obviamente não se encontra em cada esquina alguém querendo dominar o mundo, mas todos nós vivemos profundas frustrações quando a vida não corresponde aos nossos desejos e caminha quase alheia à nossa vontade.







O homem santo permite que suas não-ações estejam em comunhão com os princípios universais.


Veja a beleza desta história sufi:


“Seja feita a vontade de Alá”, comentou um homem religioso no meio da conversa.
“Ela sempre se faz, qualquer que seja a situação”, disse o sábio Nasrudin.
“Como podes prová-lo?”
“Muito simples. Se a vontade de Alá não se fizesse sempre, seguramente vez por outra a minha se faria, não achas?”
“Mas”, perguntaria o pragmático, “isso não anula completamente o valor do esforço?”
Muito pelo contrário. A percepção de que vivemos numa realidade em que a “inter-ação” é mais importante do que a ação, e o respeito mais importante do que a vontade, nos faz perceber o esforço da maneira que ele realmente merece ser visto: não como a moeda com que compramos o sucesso, mas como a ponte que nos põe em comunicação com o movimento do universo.


Diz a cabala que a ação é conseqüência de três outras instâncias que a antecedem: a emanação, a formação e a criação. Todas elas fazem parte da ordem divina da existência. A primeira é o reino perfeito e imutável da emanação divina; a segunda representa a formação do universo conforme descrito no Gênesis; e a terceira se caracteriza pela palavra “modelou” (Deus criou Adão a partir da argila e “soprou” em suas narinas a alma vivente). A ação se desencadeia quando Adão e Eva comem o fruto da árvore do conhecimento criativo. Eles são expulsos do Éden e vêm habitar o quarto dos mundos, o mundo da ação (asiyyah, em hebraico), onde lhes são dadas vestes de pele, aludindo à encarnação no corpo físico.











Cranach, Adão e Eva/Museu Real de Belas Artes, Bruxelas
Alegoria de Adão e Eva: para nascer no plano físico, primeiro é preciso ser “expulso” do plano divino.


Essa visão mostra que toda manifestação física tem raízes imateriais e que a fonte de tudo está em um plano divino além da compreensão humana. A expulsão de Adão e Eva, portanto, apesar de sua aparente arbitrariedade, poderia ser interpretada como uma alegoria da magnitude do poder de Deus e também da ruptura com o imaterial – o nascimento ou surgimento de algo no plano físico, isto é, tudo nasce no lado de cá por ter sido “expulso” do lado de lá.


Se a ação de Adão e Eva os fez ser expulsos do Paraíso, o que os admitiria de volta? É impossível resistir ao jogo de palavras: a não-ação.


Temos aqui um dos significados mais importantes do conceito do wu wei: quanto mais despojado você estiver da noção de que age por conta própria, tanto mais próximo você estará dos desígnios de Deus.


Bem, como é que uma pessoa poderá compreender as intenções que, acredita ela, rondam cada um dos seus menores gestos? Classificar as intenções (espirituais, mentais, emocionais, físicas, etc.) dificilmente seria útil na prática, no turbilhão da vida interior. Considere a interação existente de todas as coisas e a percepção de que os fatos circundantes são efeitos de outras esferas; isso mostra que o poder das intenções humanas é ilusório, no sentido de que não são elas que estão realmente comandando a ação. Quem a comanda são as oscilações de um oceano vastíssimo, onde o homem, no máximo, poderá aprender a “surfar” com mais desenvoltura e talvez com mais bondade.


Por isso, uma das principais interpretações acadêmicas do conceito taoísta de não-ação é: ação desprovida de intenção. Não ousamos defender aqui essa ausência de intenção, porque consideramos quase impossível sua realização prática, mas reconhecemos que a consciência da interdependência torna as intenções pessoais menos arrogantes.


Quando o homem se esforça, o que ele tem em mente? Uma intenção determinada ou a busca de sintonia com o princípio dinâmico do universo?


O esforço, enquanto riqueza do Homem Santo, seria um estado de consciência em que o movimento, a dança, o fluir do sopro vital que alimenta todas as coisas deve permanecer sempre operante e não ceder a intenções mesquinhas que dão margem à estagnação e ao apego. A ação não-ativa do homem santo é a simplicidade, a espontaneidade e a sinceridade perante si mesmo e o universo. Em suma, justamente a frase de encerramento dos 81 capítulos do Tao Te King: O Caminho do Homem Santo é agir sem lutar.

Autor do artigo: Desconhecido

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Contribuíção: César


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O fim da história será o começo da paz o reino da inocência recobrada.
Autor:   Octavio Paz
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